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Jamie Oliver de camisa xadrez vermelha e preta em uma sala de aula.

News 100 · 13 de outubro de 2026

Tijolo por tijolo: como uma criança aprende que é incapaz

Sobre dislexia, vergonha e as muitas formas de ser competente

Durante muito tempo, eu achei que havia alguma coisa errada comigo. Eu tinha dificuldade para aprender o que os professores ensinavam, mas nem sabia explicar onde estava a dificuldade. Diante das notas baixas em matemática, as pessoas diziam: “mas tem que tirar dúvida, pedir pro professor explicar!” A questão é que eu não chegava sequer ao nível da dúvida. Não era “não entendi esta parte” ou “posso perguntar de outro jeito?”. Muitas vezes, eu simplesmente não sabia por onde começar. E, quando você nem consegue formular a pergunta, todo mundo ao redor parece estar muitos passos adiante.

Em casa e na escola, eu ouvia frases que muita gente já ouviu e segue ouvindo: “é só sentar e estudar”, “você não tem nenhuma outra obrigação além de estudar”. A lógica parecia tão simples na cabeça dos adultos! Se estudar era a minha única obrigação e, ainda assim, eu não conseguia dar conta, então o problema só podia estar em mim.

O que eu vivia, a minha dificuldade de absorver certos conteúdos, não tem nome até hoje. O que sei é que essa experiência vai promovendo uma sensação perigosa: a criança começa a se decepcionar consigo mesma. A cobrança externa se transforma em cobrança interna. A cada nota ruim, a cada conteúdo que parece fácil para os outros, ela acumula mais uma prova de que talvez seja menos capaz do que deveria.

Carteiras vazias organizadas em uma sala de aula.

E não importava que eu fosse sempre a melhor aluna de Literatura, que escrevesse sempre as melhores redações. No ensino fundamental, eu ficava tão focada naquilo em que eu era “ruim” que deixava de lado as disciplinas que me davam prazer de aprender. Quando cheguei ao ensino médio, já odiava a escola com todas as minhas forças. Até hoje sonho que não me formei ou que tenho prova de matemática no dia seguinte. Por muito tempo, achei que essa sensação era muito minha. Tenho dificuldade, tiro notas baixas, não gosto de estudar, não entendo nada, sou burra.

Até me tornar professora.

Foi em sala de aula que percebi quantos estudantes viviam experiências parecidas na essência, ainda que por motivos muito diferentes. Alguns tinham dificuldade para ler, outros para escrever, organizar o pensamento, manter a atenção, acompanhar o ritmo ou fazer uma prova. Muitos já chegavam à adolescência com uma definição pronta sobre si mesmos: “sou burro”, “sou péssimo em matemática”, “não sei escrever”, “estudar não é para mim”.

Crianças sentadas em sala de aula levantam as mãos diante de uma professora.

E quase nunca aquela definição tinha surgido de uma vez. Tinha sido construída pela família, pela escola, pelos amigos, tijolo por tijolo.

Foi impossível assistir a “Jamie Oliver e a Revolução da Dislexia” sem me lembrar dessa trajetória.

O que mais me impressionou no documentário foi perceber que esse homem é Jamie Oliver, uma pessoa conhecida no mundo inteiro, muito bem-sucedida, reconhecida pelo que faz, alguém que construiu uma carreira e chegou a lugares que talvez ninguém ao redor daquele menino imaginasse.

E, ainda assim, ele continua carregando a escola com ele. Quando lê um boletim antigo dizendo que não entregava as tarefas, a reação é imediata: como ele entregaria alguma coisa que não conseguia colocar no papel?

Para quem está olhando de fora, uma criança pode parecer desinteressada, preguiçosa, dispersa, pouco esforçada. Para quem está vivendo aquilo, pode existir uma sensação confusa e dolorosa: eu estou tentando e continuo não conseguindo.

O sucesso posterior não apaga necessariamente o que uma criança aprendeu sobre si mesma quando ainda estava tentando entender se era capaz.

Homem de camisa xadrez vermelha e preta em uma sala com quadro e mesas ao fundo.

Jamie encontrou na cozinha o que ele chama de liberdade. Essa parte do filme mexeu profundamente comigo porque reforça o quanto a escola ainda reconhece poucas formas de competência. Na cozinha, ele conseguia criar, testar, observar, improvisar, usar as mãos, tomar decisões, resolver problemas, ensinar. Havia ali inteligência, repertório, disciplina, memória, sensibilidade e técnica. Quase nada disso aparecia durante os anos em que aquele menino estava formando sua ideia sobre quem era.

Depois de tantos anos dando aula, consigo me lembrar de vários estudantes que eram assunto recorrente nos conselhos de classe. Iam mal nas provas, acumulavam recuperações, eram descritos como desinteressados ou pouco comprometidos. Alguns anos depois, acompanho alguns deles trabalhando muito bem como tatuadores, produtores de eventos, cozinheiros, fotógrafos, empreendedores, profissionais capazes de organizar equipes, lidar com clientes e criar soluções.

E penso também nos que não tiveram essa sorte. Nos que não encontraram uma oportunidade, um incentivo ou alguém que os ajudasse a perceber que havia outras formas de ser competente. Eles não ficaram inteligentes depois que saíram da escola. A inteligência sempre esteve ali. O que faltava eram situações em que ela pudesse aparecer.

Duas crianças colocam peças em um jogo de tabuleiro vertical no pátio de uma escola.

É mais fácil chamar um estudante de desinteressado, dizer que ele “não quer nada” ou que “não vai ser nada da vida” do que questionar os critérios que usamos para medir as capacidades. Passamos anos avaliando crianças e adolescentes por um conjunto estreito de habilidades e, a partir desse desempenho, tiramos conclusões definitivas e injustas sobre quem eles são.

Por que exploramos tão pouco as habilidades diversas dos estudantes? Por que um jovem pode passar mais de uma década dentro de uma escola sem descobrir aquilo em que é realmente bom? Por que a experiência de aprender continua tão concentrada em ouvir, ler, escrever, memorizar e responder provas, quando sabemos que as pessoas pensam, criam e resolvem problemas de formas tão diferentes? Ampliar aquilo que consideramos uma demonstração legítima de capacidade e inteligência não significa retirar conteúdo, rigor ou esforço da escola.

Livro aberto sobre uma mesa, com a mão de uma pessoa junto à página.

A dislexia exige diagnóstico e suporte adequados, mas muitas outras experiências escolares também corroem a relação de uma criança com a própria inteligência. Por que apenas um laudo precisa oferecer um olhar diferenciado? A escola não deveria conhecer melhor as formas de aprender de cada estudante?

Por isso, hoje meu principal objeto de estudo é o que chamo de autoestima intelectual: a confiança de que somos capazes de pensar, aprender, perguntar, errar e tentar de novo. Uma criança não precisa ouvir literalmente que é burra para concluir isso. Pode bastar perceber que todos parecem entender antes dela, ter vergonha de perguntar, ser chamada para o reforço diante dos colegas, tirar notas ruins repetidamente e ouvir que precisa se esforçar mais quando sente que já está se esforçando tudo o que consegue.

Penso também nos estudantes que repetem de ano. Na minha experiência como professora, a repetência costuma ser tratada como uma punição. O estudante volta para o mesmo ano marcado pelo fracasso, diante de professores que já sabem que ele repetiu e de colegas que também sabem e que o condenam por isso.

Mas repetir deveria significar receber uma nova chance de aprender. Se ele encontra o mesmo método, o mesmo olhar e a mesma expectativa sobre sua incapacidade, pode terminar o segundo ano aprendendo muito mais sobre fracasso do que sobre qualquer conteúdo escolar.

Há um dado citado no filme sobre a presença de pessoas disléxicas no sistema prisional britânico. Mais do que buscar uma relação simples de causa e efeito, ele coloca uma pergunta difícil: o que acontece quando alguém cresce se percebendo como inútil?

Crianças e adultos reunidos em um ambiente interno; alguns observam e uma pessoa registra a cena com o celular.

Quando uma criança passa anos em um lugar que devolve diariamente a sensação de que ela não consegue, não acompanha, não entende e não pertence, isso passa a morar dentro dela.

Falamos muito sobre saúde mental de crianças e adolescentes. Falamos de ansiedade, depressão, isolamento, automutilação, falta de perspectiva. Só que pertencimento também passa pela possibilidade de se sentir capaz. É muito difícil gostar de um lugar em que você acumula evidências de que está sempre aquém daquilo que “deveria” estar entregando.

Jamie construiu uma vida que contradiz completamente aquilo que a experiência escolar parecia dizer sobre ele. Encontrou uma profissão em que sua forma de pensar fazia sentido, criou, ensinou, liderou, virou referência mundial.

E as marcas continuam ali. Décadas depois, continuam fortes o bastante para fazê-lo voltar à escola, rever boletins, falar sobre vergonha e usar sua visibilidade para tentar impedir que outras crianças passem pelo mesmo.

Quantas crianças se convencem todos os anos de que são incapazes? Quantos talentos deixamos de conhecer porque aparecem de um jeito que a escola não sabe reconhecer? Quantos estudantes perdem o prazer de aprender antes mesmo de descobrir o que gostam de aprender?

Só o fato de serem tão poucos os estudantes que atravessam a escola se sentindo bons alunos em comparação com tantos que acumulam dificuldades, já deveria nos fazer desconfiar da forma como ensinamos.

Estudar deveria estar associado à curiosidade, à descoberta, à sensação de compreender algo que antes parecia distante. Pode exigir esforço, frustração, repetição e disciplina. Mas não deveria estar associado ao medo de errar, à vergonha de perguntar ou à decepção constante consigo mesmo.

Homem sorridente segura uma panela com comida em uma cozinha.

Jamie Oliver luta para que crianças com dislexia não cresçam carregando as marcas que ele carrega. Marcas que, por caminhos diferentes, eu e tantas outras crianças também aprendemos a levar conosco.

Eu terminei o filme pensando em todas as outras. Nas que não têm diagnóstico, nas que aprendem em outro ritmo, nas que são brilhantes em lugares que a escola quase nunca observa ou exalta. Nas que já decidiram que não são inteligentes, nas que ainda poderiam mudar de ideia sobre si mesmas se encontrassem um adulto capaz de olhar de outro jeito.

E talvez a melhor frase do filme resuma exatamente o que deveria ser prioridade de mudança em qualquer país do mundo:

“Um sistema educacional que só serve para algumas crianças está quebrado.”

Neste texto e para ir além

Documentário "Jamie Oliver e a Revolução da Dislexia”

Arte de documentário com o retrato de um homem de camisa xadrez e título estilizado sobre a revolução da dislexia.
Antônia Burke, de blazer bege, diante de um painel de madeira.

Antônia Burke

Antônia Burke é professora, com formação em Psicanálise pela EBEP e em Mediação de Conflitos pela UERJ. Como diretora escolar, desenvolveu o Projeto Submarino, aplicado em diferentes instituições de ensino e projetos sociais, sempre com foco em identidade, comportamento humano e aprendizagem colaborativa. Pesquisadora de soluções eficazes para a educação, Antônia Burke une escuta, inovação e colaboração em projetos que fortalecem relações entre estudantes, famílias e escolas.

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