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O luto não tem upload
Nesta edição: Um olhar sobre as tecnologias que prometem conversar com quem já partiu.
Poucas vezes um filme correspondeu tão pouco às expectativas que eu tinha sobre ele. Nos primeiros minutos, realmente imaginei que apenas confirmaria minha ideia de que, como toda tecnologia, dispositivos que simulam conversas de pessoas enlutadas com seus mortos precisam de limites éticos. Pensei que, ao final, veria lados positivos e negativos nessa interação homem-máquina e poderia traçar alguns perfis sobre quem pode se beneficiar mais ou não dos aplicativos de luto. Eu estava muito enganada. E, ao final, senti apenas repulsa.
No início de “O Eu Eterno”, a possibilidade de que pessoas sem comunidades de apoio e aprisionadas nos silêncios dos próprios lutos recorram à inteligência artificial para elaborá-los parece quase razoável. Não deveria acontecer com ninguém, claro. Todo mundo deveria ter a quem recorrer nos momentos de maior vulnerabilidade. Mas, se essa não é a realidade, quem sabe a tecnologia não possa ser melhor do que nada?

Acontece que, como em quase tudo, muita coisa pode ser pior do que nada. O documentário lembra que, para muita gente, existe um medo grande de que uma pessoa amada que morreu tenha ido para um lugar pior. É uma contraposição ao medo de quem está encarando o fim da própria vida, algo muito presente em outro documentário da plataforma, “Dosed”. Se em “O Eu Eterno”, a pessoa enlutada quer garantir que seu morto não foi parar no inferno, em “Dosed”, a pessoa por quem se enlutará quer ter certeza de que ficarão bem aqueles que sobreviverão a ela. Nenhuma das duas coisas é possível.
Mas a tecnologia é muito boa em enganar. Não é porque alguém tem consciência de conversar com quem não existe mais, que o que acontece ali nos caracteres do teclado não provoca sentimentos reais. Sabemos que é impossível compreender completamente o que a inteligência artificial generativa é capaz de fazer. “O Eu Eterno” mostra que se pode sair de uma conversa artificial com a cabeça pior do que entrou. Não há qualquer garantia de experiência positiva.
Costumamos ter medo de que processamentos artificiais de luto adiem o processo de perda, sem ajudar a atravessá-lo. Mas isso passa a ser o de menos. O que acontece em interações virtuais pode ser, em si, uma complicação do luto: no pós-simulação, pode haver sensações mais devastadoras que as provocadas pelo que é real.

O documentário acerta muito em discutir responsabilidades. E mostra que, para quem está lucrando com esse novo negócio dos mortos, isso não é problema deles. Na melhor das hipóteses, haverá um “jogue com responsabilidade”, como no universo das apostas virtuais.
Não é a propósitos e valores humanistas que certas tecnologias estão servindo. No capitalismo da morte, tanto faz se o representante virtual de quem morreu se tornará um alguém totalmente diferente. A nossa personalidade pode ser capturada pela IA? Nossa linguagem? Não parece ser um problema que terminemos o processo menos humanos, desde que as memórias de parte do que fomos um dia estejam preservadas em softwares lucrativos. Um resumo do eu monetizável.
Em outro documentário da plataforma, “Human Forever”, a ideia de que podemos construir o que somos até o fim é confrontada com a realidade de que tantas pessoas passarão muito tempo sem os registros recentes de quem um dia foram. Isso não faz menores as suas vidas, ou não deveria fazer. Porque emoções importam, mesmo que as memórias não estejam mais lá. Máquinas podem ser um imenso repositório de lembranças e criação de conexões; mas nunca irão se emocionar.

Em “Dosed”, a extensão da vida a qualquer custo é a própria questão. Exatamente porque emoções importam – embora precise registrar que não, não há qualquer evidência de que emoções negativas causem câncer -, Laurie quer vivê-las com intensidade. Ela não quer viver um pouco mais de tempo com menos vida. Quer vida até o fim. E, como apurei depois, morreu vivendo.

A monetização do eu não vai valer os riscos. Sim, as pessoas precisam ser alertadas sobre as ilusões, no mundo real e no virtual. Mas é mais do que isso: há tecnologias que simplesmente não deveriam existir. Como identificá-las? Para mim, dois princípios são inegociáveis: a negação da morte e a desumanização do humano. Nós precisamos continuar insubstituíveis para aquelas poucas pessoas que nos amam de muito perto. Um avatar que, com base no material que passei a vida fornecendo, reproduza algo que eu diria não ser eu. O ‘eu’ só é possível enquanto pode repensar, desistir, mudar de ideia. Nós não podemos ser reduzidos a tão pouco. Nem podemos passar a vida fazendo upload de nós mesmos – enquanto baixamos o download eventual dos nossos mortos.
A nossa mortalidade é a definição essencial do que somos. Sobreviver à morte por registros na nuvem não deveria ser um objetivo do humano.