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Marcelo Serrado em cena do filme Fora do Roteiro

News 99 · 29 de setembro de 2026

Acho que tenho um problema.

O medo não chega gritando

Em janeiro de 2021, o mundo estava tentando descobrir como sobreviver à pandemia de covid-19, que parecia não ter fim. Trancados em lockdown desde março do ano anterior, já tínhamos entendido que aquela situação não terminaria tão cedo, e por isso todos buscavam alternativas e novas soluções para o trabalho, os estudos e a vida em geral. Na TV, chegavam as notícias sobre a temida “variante Manaus”, e o número de óbitos só aumentava. A classe artística usava e abusava da criatividade, fazendo espetáculos por videoconferência, ministrando cursos a distância e se esforçando para não esmorecer. Recebi um convite para um trabalho de publicidade em Curitiba e resolvi aceitar.

Um mês havia se passado desde o meu primeiro ataque de pânico. Embora tivesse sido assustador, traumático e desestabilizador, eu acreditava que aquilo não passava de um acidente de percurso e que o assunto estava devidamente superado. Não havia procurado ajuda especializada, tampouco buscado mais informações a respeito do que eu tinha vivenciado.

Marcelo Serrado durante uma crise em cena do filme Fora do Roteiro

Mas em Curitiba, sozinho novamente em um quarto de hotel, voltei a sentir os mesmos sintomas. Quem já teve um ataque de pânico sabe: o medo não chega gritando, ele se aproxima de mansinho, feito um gato no escuro. Senti o coração disparar, como se alguém tivesse ligado um motor dentro do meu peito. O quarto do hotel parecia menor a cada segundo – as paredes se aproximavam, o ar ficava pesado. Tentei respirar fundo, mas o ar não vinha, como se houvesse um nó na garganta, uma força invisível me apertando. As mãos formigavam, a testa suava, fria, e o estômago se revirava em ondas de pavor. Eu sabia, racionalmente, que estava seguro, que eram só um quarto, uma cama, um carpete bege, mas o corpo gritava o contrário: perigo, perigo, perigo!

23:34. Pensei que fosse morrer ali. Ou enlouquecer. Ou talvez as duas coisas. Meu coração batia tão rápido que parecia prestes a estourar; cada som – o ruído do ar-condicionado, o barulho distante do elevador lá fora – virava uma ameaça. Tentei me levantar, abrir a janela, mas as pernas tremiam demais.

Cena do filme Fora do Roteiro

Eu estava morrendo, de novo.

E, mais uma vez, não morri. Consegui sair do hotel e caminhar pela rua, sozinho, de madrugada, numa cidade estranha. A crise, embora parecesse interminável, durou uns 15, 20 minutos, e depois passou. Mas deixou uma lembrança incômoda: um zumbido no ouvido, que me acompanha até hoje. Consultei os melhores otorrinolaringologistas, fiz todos os exames e me aventurei a variados tipos de tratamento – até parar de comer doce, para ver se tinha relação. Infelizmente nada adiantou: ouço um chiado constante e passei a usar aparelho auditivo, que ameniza, mas não resolve o problema.

Depois do segundo ataque, ficou claro que havia alguma coisa errada e que eu precisava de ajuda. Isso tudo em meio à pandemia, quando a gente tinha que usar máscara o tempo todo, lavar as compras do mercado, limpar tudo com álcool, e não era simples se encontrar pessoalmente com estranhos.

Para completar, no mês seguinte aconteceu o inevitável: peguei covid. Tive tosse, cansaço, dores no corpo e o zumbido no ouvido se intensificou bastante, passando a me incomodar de verdade. Nessa época – ainda anterior à vacina –, o medo de contágio era imenso. Como morávamos num apartamento de dois andares, eu ficava isolado no andar de cima, e minha mulher e meus filhos gêmeos, que estavam com 7 anos, no andar de baixo. Por sorte, em cerca de uma semana me recuperei e ninguém mais de casa se contaminou.

Marcelo Serrado em cena do filme Fora do Roteiro

Saí desse processo exausto, realmente exaurido, sem energia alguma. Busquei um terapeuta, que foi um grande apoio. Foi aí que uma amiga me indicou a Tip Clínica, em Belo Horizonte, que utiliza psicoterapia fenomenológico–existencial para fazer um mergulho através do seu inconsciente até o ego, buscando lembranças mais antigas do que a própria existência. De início, fiz sessões on-line com uma psicoterapeuta e psiquiatra, e mais tarde fui a BH para o tratamento presencial, que consiste em 10 sessões de três horas cada, ao longo de cinco dias – uma experiência intensa, que me levou a regredir até antes do meu nascimento. Eu ficava sentado numa poltrona confortável, semelhante às da classe executiva de um avião. Então a terapeuta colocava uma venda nos meus olhos, me reclinava e, de tempos em tempos, passava alguns comandos, como:
– Imagine que você está numa escada, subindo dez degraus, um, dois, três…
Eu imaginava.
– Imagine que você chegou a um lugar bonito da sua infância. Que lugar é esse? – perguntava ela.
– Uma praia.
– Está vindo alguém na sua direção. Como é essa pessoa?
E assim eu chegava a lugares muito distantes na minha memória.
– Imagine uma idade.
– Cinco anos.
Ela me guiou até que eu chegasse à fase intrauterina.
– Agora você está no útero da sua mãe. Quantos meses você tem?
– Sete.
– Como você está se sentindo?
E eu me lembrava dos meus pais conversando na varanda.
Não parava por aí:
– Agora pense na sua mãe dentro do útero da sua avó. Como ela está se sentindo?
Quando chegava ao final da sessão, eu estava simplesmente esgotado. Mas valeu a pena, porque consegui ressignificar passagens da infância e questões de família. É um processo longo, forte e, de alguma maneira, doloroso.

Olhar em detalhe em cena do filme Fora do Roteiro

Logo no início da minha busca por uma terapia que me ajudasse, conheci a Meditação Transcendental (MT) e fui orientado pelo professor Klebér Tani. Com ele, aprendi a usar essa técnica indiana milenar que ensina o indivíduo a se voltar para dentro de si, uma ferramenta incrível para desacelerar. Para quem, como eu, tem dificuldade de controlar o estresse, não consegue atingir estabilidade emocional e gasta muita energia, a meditação pode ter um grande papel.

Antes de começar a meditar, eu pensava que jamais conseguiria sentar, fechar os olhos e passar mais de três segundos apenas observando meus pensamentos, mas estava enganado. Aprendi que o ideal é meditar de 15 a 20 minutos ao acordar e no fim da tarde. Sendo bem realista, no meu caso, é difícil ficar tanto tempo, mas o pouco que consigo já é muito bom, alivia a ansiedade e me dá uma sensação de bem-estar no corpo e na mente. O meu ritual envolve ficar sentado, contemplando a vista da minha varanda, depois fechar os olhos e respirar pelo diafragma. Inspiro, solto o ar devagar, repito em três tempos, solto o ar. Gosto de entoar o “Om”, o mantra universal; além disso, tenho também o meu mantra pessoal, uma palavra que me foi dada por um mestre. Cada um tem a sua palavra e medita pensando nela. Quando outros pensamentos vêm, volto a repetir o mantra para espantá-los.

Kléber Tani em cena do filme Fora do Roteiro

Como diz o Klebér, com uma semana de prática é possível entrar em contato com a fonte dos seus pensamentos e adquirir a habilidade de perceber dentro de si o ponto que te liga ao universo, o que os cientistas chamam de “teoria do campo unificado”. Para mim, a meditação traz foco e concentração para fazer uma coisa de cada vez e me conectar comigo mesmo. Como sou o tipo de pessoa que foca e desfoca o tempo todo, antes de entrar no palco costumo usar as técnicas de meditação que aprendi para conseguir me concentrar.

A MT me deixa menos ansioso porque me conduz a viver o agora: com ela aprendi que, para viver o presente, a gente tem que largar o passado e as preocupações quanto ao futuro. O Klebér me ensinou que o agora é gigantesco, belo, especial e pleno. Essa plenitude é o barato que a gente sente quando medita com regularidade. Ele me explicou, mas confesso que, na prática, é difícil alcançar – no meu caso, é uma eterna busca.

Marcelo Serrado em cena do filme Fora do Roteiro

Uma vez, em casa, deitado, vendo desenho animado com as crianças, vi a crise entrar pela janela, flutuando como se fosse uma entidade. No meu corpo, os sinais: mãos trêmulas, boca seca e coração acelerado. “Era só o que faltava! Numa hora dessas?”, pensei. Então respirei, pensei na MT e no meu mantra, até que a crise foi embora. Fazendo MT, volto ao estado de normalidade e consigo mandar a crise sair pelo mesmo lugar por onde entrou, pela janela. E você pode meditar em qualquer lugar, na cama, no táxi, no avião, no camarim, o que já me ajudou a espantar várias crises que estavam me espreitando. Sai pra lá!

Não tenho dúvidas sobre a potência dessa prática: uma vez, há muitos anos, tive a oportunidade de estar em um centro de meditação em South Fallsburg, Nova York, na companhia de duas mil pessoas entoando o mantra “Om”, que terminou em um silêncio de uma hora. A energia que emergiu dali era quase palpável.

Na minha busca por alívio, procurei psicólogos, psiquiatras, fiz hipnose, terapia do abraço… Quando surgiu o conceito de mindfulness, conheci o podcast Autoconsciente, da Regina Giannetti. Com ela aprendi sobre atenção plena, que é estar cem por cento presente naquilo que estamos fazendo, com entrega e intenção. Suas falas me orientavam no sentido de ter foco e ficar em paz comigo mesmo – um enorme desafio para um cara ansioso como eu. Dali para a frente, entendi a importância da presença em cada momento da nossa vida e que ela, infelizmente, é raridade no mundo ultraconectado onde viemos parar.

Marcelo Serrado ao piano em cena do filme Fora do Roteiro

Ao longo dos anos, entendi a importância de uma boa nutrição e do exercício físico regular, e me dediquei a essas práticas também. Faço uso de remédios controlados, receitados por psiquiatras especificamente para mim. A medicação me ajuda demais a lidar com as pressões cotidianas e a controlar a ansiedade e o medo de novas crises. Tomo os remédios diariamente, sem pular ou esquecer, e, ao menos uma vez por ano, marco uma consulta para reavaliar o tratamento.

O pânico é o corpo dizendo: Para. E eu, ator, aprendi o contrário: Continua, o show não pode parar. Demorei para aceitar que a pausa também é parte do texto. Hoje, quando sinto o medo chegando, eu não fujo. Eu respiro.

Marcelo Serrado e seu filho em cena do filme Fora do Roteiro

O corpo é sábio. Ele avisa. A gente é que esquece de escutar. E o meu corpo, naquela época, só queria dizer: “Marcelo, você está vivo. Só precisa aprender a estar.”

Trecho do livro “Fora do Roteiro”, de Marcelo Serrado (Editora Sextante), cujas histórias deram origem ao documentário homônimo, original e exclusivo da Aquarius.

Neste texto e para ir além

Cartaz do documentário Fora do Roteiro

Documentário “Fora do Roteiro”, original Aquarius

Capa do livro Fora do Roteiro, de Marcelo Serrado

Livro “Fora do Roteiro”, de Marcelo Serrado

Capa do livro A vida foi feita para dar certo, de Kléber Tani

Livro “A vida foi feita para dar certo”, de Kléber Tani

Marcelo Serrado

Marcelo Serrado é um premiado ator, comediante, produtor e diretor, com 40 anos de carreira artística. Suas experiências com crises de pânico e ansiedade o conduziram a criar o monólogo “Terapia”, além de protagonizar o documentário “Fora do Roteiro”, original e exclusivo da Aquarius, e também a escrever o livro de mesmo título. Serrado relata com humor e sensibilidade as vivências que o fizeram buscar ajuda e perceber que era preciso parar, respirar com intenção e focar no momento presente.

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