Em janeiro de 2021, o mundo estava tentando descobrir como sobreviver à pandemia de covid-19, que parecia não ter fim. Trancados em lockdown desde março do ano anterior, já tínhamos entendido que aquela situação não terminaria tão cedo, e por isso todos buscavam alternativas e novas soluções para o trabalho, os estudos e a vida em geral. Na TV, chegavam as notícias sobre a temida “variante Manaus”, e o número de óbitos só aumentava. A classe artística usava e abusava da criatividade, fazendo espetáculos por videoconferência, ministrando cursos a distância e se esforçando para não esmorecer. Recebi um convite para um trabalho de publicidade em Curitiba e resolvi aceitar.
Um mês havia se passado desde o meu primeiro ataque de pânico. Embora tivesse sido assustador, traumático e desestabilizador, eu acreditava que aquilo não passava de um acidente de percurso e que o assunto estava devidamente superado. Não havia procurado ajuda especializada, tampouco buscado mais informações a respeito do que eu tinha vivenciado.
Mas em Curitiba, sozinho novamente em um quarto de hotel, voltei a sentir os mesmos sintomas. Quem já teve um ataque de pânico sabe: o medo não chega gritando, ele se aproxima de mansinho, feito um gato no escuro. Senti o coração disparar, como se alguém tivesse ligado um motor dentro do meu peito. O quarto do hotel parecia menor a cada segundo – as paredes se aproximavam, o ar ficava pesado. Tentei respirar fundo, mas o ar não vinha, como se houvesse um nó na garganta, uma força invisível me apertando. As mãos formigavam, a testa suava, fria, e o estômago se revirava em ondas de pavor. Eu sabia, racionalmente, que estava seguro, que eram só um quarto, uma cama, um carpete bege, mas o corpo gritava o contrário: perigo, perigo, perigo!
23:34. Pensei que fosse morrer ali. Ou enlouquecer. Ou talvez as duas coisas. Meu coração batia tão rápido que parecia prestes a estourar; cada som – o ruído do ar-condicionado, o barulho distante do elevador lá fora – virava uma ameaça. Tentei me levantar, abrir a janela, mas as pernas tremiam demais.
Eu estava morrendo, de novo.
E, mais uma vez, não morri. Consegui sair do hotel e caminhar pela rua, sozinho, de madrugada, numa cidade estranha. A crise, embora parecesse interminável, durou uns 15, 20 minutos, e depois passou. Mas deixou uma lembrança incômoda: um zumbido no ouvido, que me acompanha até hoje. Consultei os melhores otorrinolaringologistas, fiz todos os exames e me aventurei a variados tipos de tratamento – até parar de comer doce, para ver se tinha relação. Infelizmente nada adiantou: ouço um chiado constante e passei a usar aparelho auditivo, que ameniza, mas não resolve o problema.
Depois do segundo ataque, ficou claro que havia alguma coisa errada e que eu precisava de ajuda. Isso tudo em meio à pandemia, quando a gente tinha que usar máscara o tempo todo, lavar as compras do mercado, limpar tudo com álcool, e não era simples se encontrar pessoalmente com estranhos.
Para completar, no mês seguinte aconteceu o inevitável: peguei covid. Tive tosse, cansaço, dores no corpo e o zumbido no ouvido se intensificou bastante, passando a me incomodar de verdade. Nessa época – ainda anterior à vacina –, o medo de contágio era imenso. Como morávamos num apartamento de dois andares, eu ficava isolado no andar de cima, e minha mulher e meus filhos gêmeos, que estavam com 7 anos, no andar de baixo. Por sorte, em cerca de uma semana me recuperei e ninguém mais de casa se contaminou.
Saí desse processo exausto, realmente exaurido, sem energia alguma. Busquei um terapeuta, que foi um grande apoio. Foi aí que uma amiga me indicou a Tip Clínica, em Belo Horizonte, que utiliza psicoterapia fenomenológico–existencial para fazer um mergulho através do seu inconsciente até o ego, buscando lembranças mais antigas do que a própria existência. De início, fiz sessões on-line com uma psicoterapeuta e psiquiatra, e mais tarde fui a BH para o tratamento presencial, que consiste em 10 sessões de três horas cada, ao longo de cinco dias – uma experiência intensa, que me levou a regredir até antes do meu nascimento. Eu ficava sentado numa poltrona confortável, semelhante às da classe executiva de um avião. Então a terapeuta colocava uma venda nos meus olhos, me reclinava e, de tempos em tempos, passava alguns comandos, como:
– Imagine que você está numa escada, subindo dez degraus, um, dois, três…
Eu imaginava.
– Imagine que você chegou a um lugar bonito da sua infância. Que lugar é esse? – perguntava ela.
– Uma praia.
– Está vindo alguém na sua direção. Como é essa pessoa?
E assim eu chegava a lugares muito distantes na minha memória.
– Imagine uma idade.
– Cinco anos.
Ela me guiou até que eu chegasse à fase intrauterina.
– Agora você está no útero da sua mãe. Quantos meses você tem?
– Sete.
– Como você está se sentindo?
E eu me lembrava dos meus pais conversando na varanda.
Não parava por aí:
– Agora pense na sua mãe dentro do útero da sua avó. Como ela está se sentindo?
Quando chegava ao final da sessão, eu estava simplesmente esgotado. Mas valeu a pena, porque consegui ressignificar passagens da infância e questões de família. É um processo longo, forte e, de alguma maneira, doloroso.
Logo no início da minha busca por uma terapia que me ajudasse, conheci a Meditação Transcendental (MT) e fui orientado pelo professor Klebér Tani. Com ele, aprendi a usar essa técnica indiana milenar que ensina o indivíduo a se voltar para dentro de si, uma ferramenta incrível para desacelerar. Para quem, como eu, tem dificuldade de controlar o estresse, não consegue atingir estabilidade emocional e gasta muita energia, a meditação pode ter um grande papel.
Antes de começar a meditar, eu pensava que jamais conseguiria sentar, fechar os olhos e passar mais de três segundos apenas observando meus pensamentos, mas estava enganado. Aprendi que o ideal é meditar de 15 a 20 minutos ao acordar e no fim da tarde. Sendo bem realista, no meu caso, é difícil ficar tanto tempo, mas o pouco que consigo já é muito bom, alivia a ansiedade e me dá uma sensação de bem-estar no corpo e na mente. O meu ritual envolve ficar sentado, contemplando a vista da minha varanda, depois fechar os olhos e respirar pelo diafragma. Inspiro, solto o ar devagar, repito em três tempos, solto o ar. Gosto de entoar o “Om”, o mantra universal; além disso, tenho também o meu mantra pessoal, uma palavra que me foi dada por um mestre. Cada um tem a sua palavra e medita pensando nela. Quando outros pensamentos vêm, volto a repetir o mantra para espantá-los.
Como diz o Klebér, com uma semana de prática é possível entrar em contato com a fonte dos seus pensamentos e adquirir a habilidade de perceber dentro de si o ponto que te liga ao universo, o que os cientistas chamam de “teoria do campo unificado”. Para mim, a meditação traz foco e concentração para fazer uma coisa de cada vez e me conectar comigo mesmo. Como sou o tipo de pessoa que foca e desfoca o tempo todo, antes de entrar no palco costumo usar as técnicas de meditação que aprendi para conseguir me concentrar.
A MT me deixa menos ansioso porque me conduz a viver o agora: com ela aprendi que, para viver o presente, a gente tem que largar o passado e as preocupações quanto ao futuro. O Klebér me ensinou que o agora é gigantesco, belo, especial e pleno. Essa plenitude é o barato que a gente sente quando medita com regularidade. Ele me explicou, mas confesso que, na prática, é difícil alcançar – no meu caso, é uma eterna busca.
Uma vez, em casa, deitado, vendo desenho animado com as crianças, vi a crise entrar pela janela, flutuando como se fosse uma entidade. No meu corpo, os sinais: mãos trêmulas, boca seca e coração acelerado. “Era só o que faltava! Numa hora dessas?”, pensei. Então respirei, pensei na MT e no meu mantra, até que a crise foi embora. Fazendo MT, volto ao estado de normalidade e consigo mandar a crise sair pelo mesmo lugar por onde entrou, pela janela. E você pode meditar em qualquer lugar, na cama, no táxi, no avião, no camarim, o que já me ajudou a espantar várias crises que estavam me espreitando. Sai pra lá!
Não tenho dúvidas sobre a potência dessa prática: uma vez, há muitos anos, tive a oportunidade de estar em um centro de meditação em South Fallsburg, Nova York, na companhia de duas mil pessoas entoando o mantra “Om”, que terminou em um silêncio de uma hora. A energia que emergiu dali era quase palpável.
Na minha busca por alívio, procurei psicólogos, psiquiatras, fiz hipnose, terapia do abraço… Quando surgiu o conceito de mindfulness, conheci o podcast Autoconsciente, da Regina Giannetti. Com ela aprendi sobre atenção plena, que é estar cem por cento presente naquilo que estamos fazendo, com entrega e intenção. Suas falas me orientavam no sentido de ter foco e ficar em paz comigo mesmo – um enorme desafio para um cara ansioso como eu. Dali para a frente, entendi a importância da presença em cada momento da nossa vida e que ela, infelizmente, é raridade no mundo ultraconectado onde viemos parar.
Ao longo dos anos, entendi a importância de uma boa nutrição e do exercício físico regular, e me dediquei a essas práticas também. Faço uso de remédios controlados, receitados por psiquiatras especificamente para mim. A medicação me ajuda demais a lidar com as pressões cotidianas e a controlar a ansiedade e o medo de novas crises. Tomo os remédios diariamente, sem pular ou esquecer, e, ao menos uma vez por ano, marco uma consulta para reavaliar o tratamento.
O pânico é o corpo dizendo: Para. E eu, ator, aprendi o contrário: Continua, o show não pode parar. Demorei para aceitar que a pausa também é parte do texto. Hoje, quando sinto o medo chegando, eu não fujo. Eu respiro.
O corpo é sábio. Ele avisa. A gente é que esquece de escutar. E o meu corpo, naquela época, só queria dizer: “Marcelo, você está vivo. Só precisa aprender a estar.”
Trecho do livro “Fora do Roteiro”, de Marcelo Serrado (Editora Sextante), cujas histórias deram origem ao documentário homônimo, original e exclusivo da Aquarius.
Neste texto e para ir além
Documentário “Fora do Roteiro”, original Aquarius
Livro “Fora do Roteiro”, de Marcelo Serrado
Livro “A vida foi feita para dar certo”, de Kléber Tani
