Somos uma geração que não se sentiu vista pelos próprios pais, na grande maioria das vezes, e isso não é questão de culpar, mas de fazer sentido da nossa própria história.
Quantas vezes, em nossas infâncias e adolescências, sentíamos como se nossos pais não nos enxergassem, não nos entendessem? Quantas vezes, tivemos a mesma dúvida: será que eu sou amado? Será que mereço ser amado?
E, então, temos nossos próprios filhos, e por mais que tenhamos contados a nós mesmos que seríamos fortes e faríamos diferente dos nossos próprios pais, nos primeiros desafios comportamentais dos nossos filhos, percebemos o quanto é difícil criar filhos sem olhar para dentro.
Se não nos sentíamos vistos, e não conseguimos olhar para dentro de nós mesmos, como veremos nossos filhos? Esse é o ponto: a parentalidade precisa, inevitavelmente, vir de dentro para fora.
No documentário Olhar pra Si tem uma cena que me marcou bastante, e acho que pode ilustrar o que estou tentando escrever: uma mãe, sentada atrás de um vidro, num consultório na Austrália, assistindo a um vídeo dela mesma com o filho. É parte de um programa chamado Círculo de Segurança, em que toda semana ela é filmada brincando com seu filho, registrando as interações sociais.
A psicóloga, vendo o vídeo com essa mãe, pergunta: “O que você vê?”.
Nas primeiras semanas, essa mãe vê o que todo mundo tende a ver, ou seja, um filho com dificuldade de tomar decisões, e que não consegue controlar suas emoções, por consequência. Vê uma mãe tentando ajudar, mas sem sucesso.
Mas quando se assiste ao mesmo vídeo de novo, dias depois, a reação muda. Essa mãe vê outra pessoa: “Eu realmente vi como me senti e o quão desconfortável eu estava. E, portanto, o quão desconectada eu estava dele. Eu não estava tentando ajudá-lo de verdade. Eu estava tentando fazer aquilo parar pra mim.”
Ela tentou consertar o filho, mas quem disse que o filho precisava de conserto?
Esse documentário traz algo que eu raramente vejo em documentários de parentalidade: mostram os pais, em suas dificuldades, sombras, traumas, medos, lutos. Na minha clínica, é exatamente isso que eu experimento todos os dias com os meus pacientes, no trabalho de apoiá-los a perceberem que nossos filhos estão, na maioria das vezes, apenas sendo o que deveriam ser: crianças (ou adolescentes).
Pode parecer um discurso que culpabiliza os pais e mães da atualidade, mas, na verdade, é o contrário. É libertador, na verdade, porque temos a possibilidade de entender como reagimos da forma que reagimos aos nossos filhos, a recontar nossas histórias, elaborar e, então, termos chance de nos libertar e parar de repetir o que machuca nossos filhos (e a nós mesmos).
No filme, isso se torna evidente quando retrata a breve história de pais e mães, relatando suas próprias histórias de abandono, violência, negligência, e reconhecendo o quanto isso, inevitavelmente, atravessa a relação que eles constroem com seus filhos.
Um pai, que se orgulhava por não bater nos filhos, contou: “Eu não percebi que posso assustar muito meus filhos ao mudar minha voz e pelo meu porte físico, principalmente quando eles são pequenos. Eu não sabia que estava fazendo isso. Eu achava normal reagir assim. E eu não estava reagindo tão mal quanto a forma como fui criado, então achei que estava indo melhor.”
Essa é uma das armadilhas mais comuns na parentalidade, porque tendemos a usar réguas que apenas refletem um desejo pelo que gostaríamos de ter vivido em nossas infâncias. Em outras palavras, se régua vira um “melhor do que fizeram comigo”, e não “bom o suficiente pra ele”, pode ser possível concluir que um grito é melhor que uma palmada. A comparação com a própria infância é um como um analgésico, mas nos faz parar de olhar para os nossos filhos.
Mas, então, qual seria a solução? Será que precisamos ler mais livros?
Numa sociedade que premia a produtividade, e com tantos livros publicados todos os meses, poderia fazer sentido concluir que aprender mais sobre filhos seja a solução, mas uma mãe no documentário mostrou perfeitamente o que eu digo a todos os meus pacientes.
Essa mãe leu os livros. Leu vários, inclusive, mas em dado momento, ela disse: “Eu estava de joelhos, eu estava ouvindo, estava tentando demonstrar empatia. Mas o meu filho não tinha a reação que estava descrita no livro. Eu pensava: estou fazendo o que o livro manda e ainda assim não funciona.”
Esse tipo de relato é algo que ouço com muita frequência. De mãe, de pai, de quem já leu de tudo e ainda assim explode às sete da noite. E daí vem a sensação de impotência e culpa, que mais afasta do que aproxima pais de filhos.
A realidade, e que bom que o filme deixa isso bem claro, é que o fator mais importante para a geração de pais e mães da atualidade é que eles olhem para dentro. Que busquem ajuda. Que cuidem da saúde mental. Nossos filhos não merecem carregar os fardos das nossas próprias infâncias, mas para isso, precisamos pedir ajuda.
Se, como já dizia John Bowlby, psicanalista britânico que criou a Teoria do Apego, o vínculo é necessidade básica do ser humano, precisamos olhar para nossos vínculos de apego, seja aqueles que construímos com nossos cuidadores principais no início das nossas vidas, mas principalmente olhar para os que estamos construindo com os nossos filhos. É nesse exercício que perceberemos a importância de se quebrar ciclos de violência, e mesmo que eles sejam muito difíceis de se quebrar, vale a pena o trabalho, afinal, não apenas nossos filhos se beneficiarão disso, mas nós mesmos também.
É somente através desse vínculo, de uma escuta empática, da disponibilidade afetiva, que conseguiremos construir com nossos filhos aquilo que talvez nunca tivemos com nossos pais.
Filhos podem não vir com manual, mas o vínculo de apego é uma excelente bússola, e Olhar pra Si conta isso de uma forma muito humana e profunda.
