João Jardim estreia na Aquarius com A Dança do Universo, documentário original que retrata a trajetória de Marcelo Gleiser sob uma perspectiva que vai além da ciência. Ao combinar memórias pessoais, relações familiares e reflexões sobre o Universo, o filme convida o assinante a ampliar o olhar sobre a vida e o conhecimento. Nesta entrevista, o diretor comenta o processo de criação da obra, as escolhas narrativas e a experiência de contar a história de um dos cientistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente.
O que despertou seu interesse em transformar a trajetória de Marcelo Gleiser em um documentário?
A primeira coisa que despertou meu interesse em fazer um filme sobre a trajetória de Marcelo Gleiser foi a possibilidade de unir o conhecimento produzido pela humanidade ao longo de milhares de anos à trajetória de uma pessoa profundamente dedicada a difundir esse conhecimento.
Você dirigiu documentários sobre personagens muito diferentes ao longo da carreira. O que a história de Marcelo Gleiser exigiu de diferente em relação aos seus trabalhos anteriores?
A principal distinção entre A Dança do Universo e meus projetos anteriores está na responsabilidade de abordar um tema científico. O desafio foi equilibrar uma narrativa sobre emoções, sentimentos e a trajetória de uma vida, marcada por perdas e conquistas, com os maiores questionamentos da ciência. Como esse é um campo imenso do conhecimento, o processo de seleção foi complexo. Era preciso definir o que seria essencial e eficaz para compor o filme, sem permitir que o projeto se fragmentasse em duas obras distintas.
Havia, de um lado, a biografia de Marcelo e, de outro, as grandes interrogações da humanidade: a origem da vida e do Universo, a existência de vida extraterrestre e a natureza da consciência. O ponto central do trabalho foi integrar essas duas esferas, harmonizando a intimidade da experiência humana com a complexidade desses temas universais.
Marcelo Gleiser participou ativamente da construção do filme ou você procurou preservar um olhar mais externo sobre sua trajetória?
O Marcelo participou bastante da construção do filme. Eu precisava levantar as hipóteses sobre a vida dele e definir o que iria contar, mas também conversar com ele para entender se aquilo funcionava, se ele se sentia interessado em falar sobre aqueles temas, já que é o narrador da própria história. Também precisávamos discutir quais questões relacionadas à história do mundo e à história da ciência poderiam ser abordadas dentro do tempo que tínhamos e quais seriam realmente relevantes para ele. Era um bate-bola intenso.
Ao mesmo tempo, o Marcelo nunca foi o roteirista do filme e nunca se colocou nessa posição de dizer: “Vamos falar disso, disso e disso”. Eu precisei ler os livros dele, conhecer o que já havia escrito e, a partir daí, trocar ideias constantemente com ele para perceber quais eram os assuntos que mais faziam o olho dele brilhar. Era justamente esse brilho no olhar que eu procurava. Queria abordar no filme os temas pelos quais ele realmente se sentia motivado, porque isso poderia tornar a obra cativante para todo mundo. No fim, ele está falando sobre aquilo que nós entendemos que, para ele, é relevante compartilhar naquele momento.
Como foi conquistar a confiança da família de Marcelo para registrar lembranças e episódios tão íntimos?
Acho que a confiança do Marcelo e da família dele foi conquistada, primeiro, pela maneira como eu me coloquei diante deles. Eu estava ali para procurar o melhor de cada um, para proteger e valorizar aquilo que aquela pessoa tinha de mais significativo. O Eduardo Coutinho já dizia que você precisa estar sempre pronto para proteger seu personagem, para não deixá-lo ir a algum lugar que possa ser ruim para ele mesmo.
Quando você se coloca nessa posição, tudo melhora e tudo funciona, porque as pessoas percebem que você está tendo cuidado com elas e que está preocupado em fazer com que a filmagem aconteça de maneira tranquila. Elas também percebem que você está interessado na melhor parte delas, naquilo que têm de melhor para oferecer ao mundo, naquilo que é relevante, e não naquilo que pode expor alguma coisa apenas para chamar atenção momentaneamente, mas que pouco interessa para a história daquela pessoa. Foi assim que procurei conquistar a confiança da família do Marcelo. Eu achava que valia muito a pena, porque são pessoas incríveis, e eu estava realmente focado em buscar o melhor delas e contar uma história sobre aquilo que vale a pena ser compartilhado.
O documentário transita entre diferentes momentos da vida de Marcelo e reflexões sobre ciência. Como vocês definiram a estrutura narrativa para que essas fases dialogassem entre si?
A definição da estrutura do documentário só aconteceu de fato durante a montagem. Nós tínhamos duas trilhas de roteiro: uma relacionada à vida pessoal do Marcelo e outra formada pelas grandes perguntas que ainda não têm respostas definitivas. De onde surgiu a vida? Como surgiu o Universo? Como surgiu a consciência? Existe vida fora da Terra? Essas perguntas faziam uma trilha paralela à história do Marcelo.
O desafio na edição foi fazer com que essas duas trilhas convergissem até se tornarem um único filme. Esse foi o grande desafio, e esse trabalho foi feito junto com a montadora. Mas, desde a filmagem, eu já tinha isso na cabeça. Pensava: como vou fazer essas duas histórias convergirem? O que vai funcionar e o que não vai? E, quando alguma coisa funcionava, procurávamos explorar ainda mais para ter mais possibilidades na montagem e transformar as duas narrativas em uma única história.
Depois de acompanhar tão de perto a trajetória de Marcelo, o que ficou dessa experiência para você?
Essa é uma pergunta difícil porque ficou muita coisa boa. Primeiro, ficou muito conhecimento. Aprendi muito durante a leitura e a pesquisa para fazer o filme. Diria que foi uma experiência que mudou minha vida. Tudo o que aprendi sobre o Universo, o cérebro, a consciência e sobre como a nossa mente funciona foi muito significativo. Todo o conhecimento que precisei adquirir para fazer o filme e poder falar sobre esses assuntos transformou minha maneira de enxergar o mundo.
Também ficou muito forte para mim a experiência de conhecer uma pessoa tão dedicada e envolvida em transformar aquilo que sabe em conhecimento para outras pessoas. O Marcelo é um professor o tempo todo. Ele é um divulgador. Às vezes, a divulgação científica é tratada como algo menor, mas acredito que seja uma das coisas mais importantes que existem. Muito do que vivemos hoje, e também do que já vivemos, está relacionado a um grande desconhecimento sobre o que é verdade e o que é mentira. As fake news, por exemplo, também existem porque a ciência não conseguiu comunicar a todos aquilo que descobriu e formar as pessoas de uma maneira compreensível.
Em um momento de inteligência artificial, em que a mente humana pode se tornar cada vez mais preguiçosa, acho fundamental divulgar conhecimento de maneira clara e acessível. Então, entender essa missão que o Marcelo assumiu, e até me perceber também nesse lugar, nessa missão, foi incrível. Acho que todo cineasta tem um pouco disso. Ele quer transmitir uma visão de mundo, contar uma história, compartilhar uma maneira de compreender aquilo que aconteceu. Para mim, essa conversa com o Marcelo foi muito inspiradora, e essa inspiração foi uma das coisas que ficaram.
O filme é uma produção original da Aquarius, uma plataforma que vem investindo em histórias capazes de provocar reflexão. Como você enxerga o papel de iniciativas como essa para ampliar o espaço do documentário brasileiro e aproximar esse tipo de conteúdo do público?
A importância da Aquarius no Brasil hoje é enorme. Primeiro, por trazer filmes e produções que nos ajudam a compreender um pouco melhor a ansiedade, a falta de paz e a maneira como somos obrigados a ser escravos de nós mesmos o tempo todo. Acho que a plataforma surgiu em um momento em que muita gente está tentando entender melhor o que está acontecendo consigo mesma. Mas, além disso, é muito importante porque a Aquarius oferece conteúdos que estimulam as pessoas a pensar.
Existem várias plataformas que oferecem mais do mesmo e que trabalham o tempo todo para provocar emoções. Não necessariamente de uma maneira ruim: elas fazem isso para divertir. A Aquarius também diverte, mas é uma opção para fazer você pensar um pouco, para fazer seu cérebro evoluir, para intercalar o entretenimento com algo que permita compreender melhor a vida e a si mesmo. É engraçado pensar nisso: existem plataformas que oferecem diversão e fazem você sofrer, enquanto você também pode ter uma plataforma que faz você pensar e, ao mesmo tempo, faz você feliz.
Acho que a Aquarius tem uma função muito importante. Espero que ela cresça cada vez mais porque pode se tornar uma referência ao trazer produções nacionais e oferecer esse tipo de conteúdo para um público que certamente precisa disso e se interessa por essas histórias.
Neste texto e para ir além:
Documentário: A Dança do Universo, na Aquarius
Livro: A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser
Documentário: Lixo Extraordinário, de João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley
