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Guru, guitarra e silêncio
A viagem que mudou o som e a alma da maior banda do mundo
“Os Beatles e a Índia” é um documentário fascinante sobre um período tão conturbado quanto prolífico da vida da banda: as semanas que os “Fab Four” passaram no ashram do guru Maharishi Mahesh Yogi em Rishikesh, na Índia, de fevereiro a abril de 1968. Com incríveis cenas de arquivo e depoimentos antigos e atuais, o filme, dirigido pelo escritor e jornalista indiano Ajoy Bose e adaptado de um livro do próprio Bose, conta essa história e mostra como os Beatles foram inspirados pela espiritualidade e música indiana para compor algumas de suas canções mais amadas, como “Blackbird”, “Dear Prudence”, “Back in the U.S.S.R.”, “Ob-La-Di, Ob-La-Da” e “Revolution”, entre outras.
Na verdade, a ligação dos Beatles com a Índia surgiu antes, quando George Harrison, que desde a infância ouvia a mãe, Louise, botando discos indianos na vitrola de casa, passou a se interessar em aprender a tocar cítara. Por intermédio de um amigo em comum, Harrison foi apresentado ao genial músico indiano Ravi Shankar (pai das artistas Norah Jones e Anoushka Shankar) e começou a ter aulas com o mestre. Shankar era o maior expoente da música indiana no mundo e havia feito um show marcante no festival Monterey Pop, em 1967, na Califórnia.
No fim dos anos 1960, época da contracultura e do movimento hippie, houve uma imensa onda de interesse no Ocidente pela filosofia e espiritualidade orientais. Os Beatles, que estavam experimentando com drogas lisérgicas como o LSD, se interessaram pela prática da meditação transcendental. George Harrison, em especial, ficou obcecado com a beleza e complexidade harmônica da música indiana. Em 1966, os Beatles decidiram parar de fazer shows para se concentrar apenas na composição e gravação de seus discos, que se tornariam cada vez mais densos e inovadores, e a música indiana teria uma importância cada vez maior nessas novas composições.
Harrison foi para a Índia pela primeira vez em 1966 e voltou fascinado pela cultura e filosofia de vida. No mesmo ano conheceu Ravi Shankar na Inglaterra e, no ano seguinte, voltou à Índia, dessa vez como aluno de Shankar. Ainda em 1967, os Beatles participaram de um seminário sobre meditação transcendental ministrado por Maharishi Mahesh Yogi no País de Gales, mas o quarteto precisou largar o evento ao receber a trágica notícia da morte do empresário da banda, Brian Epstein.
Em fevereiro de 1968, os quatro – John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr – acompanhados de esposas e de um grupo de cerca de 60 pessoas, incluindo a famosa atriz Mia Farrow (então em processo de divórcio de Frank Sinatra) e astros da música como Mike Love (do grupo Beach Boys) e o cantor e compositor Donovan, chegaram a Rishikesh para um curso de treinamento em meditação transcendental.
O evento foi notícia em todo o mundo, e Yogi, que não perdia uma oportunidade de divulgar seus seminários e aulas, usou e abusou da proximidade com os Beatles para ficar mais famoso do que já era. Isso incomodou os Beatles, especialmente McCartney e Lennon, e arranhou a relação deles com o guru.
Ringo Starr não durou dez dias no ashram, e McCartney ficou por um mês antes de retornar à Inglaterra, mas Harrison e Lennon, os mais interessados em meditação transcendental, foram embora em 12 de abril de 1968, quando circularam rumores sobre supostos “comportamentos inapropriados” do guru em relação a algumas discípulas, incluindo a atriz Mia Farrow.
O tempo que passaram em Rishikesh inspirou os Beatles a compor algumas de suas músicas mais bonitas. Todo o “The White Album” (Álbum branco) (1968) foi escrito lá, e algumas canções faziam referências diretas a pessoas que estavam no ashram: “Dear Prudence” foi composta por Lennon e era uma espécie de alerta para que Prudence Farrow, irmã da atriz Mia Farrow, saísse de sua intensa meditação: “Ela estava trancada lá há três semanas”, disse Lennon, que também compôs uma brutal condenação dos supostos assédios do guru, “Sexy Sadie”. Duas canções compostas em Rishikesh acabaram gravadas no álbum “Abbey Road” (1969): “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam”.
A súbita saída de Harrison e Lennon do ashram deixou Maharishi Mahesh Yogi em maus lençóis: detonado na imprensa mundial e com fama de marqueteiro e assediador, ele viu sua imagem pública manchada. Algum tempo depois, os próprios Beatles fizeram questão de aliviar as críticas: George Harrison disse que não acreditava nas acusações de assédio, e McCartney elogiou publicamente o guru e revelou tê-lo visitado, anos depois, na Holanda. Os Beatles não duraram muito: acabaram em setembro de 1970, depois de um período conturbado de brigas e discussões. As semanas que passaram na Índia foram provavelmente as mais tranquilas que a banda teve no fim de sua carreira.