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“A cada passo que damos em direção à luz, a luz dá três passos na nossa direção.”

News 95 · 7 de agosto de 2026

“A cada passo que damos em direção à luz, a luz dá três passos na nossa direção.”

Maharishi Mahesh Yogi

Havia pouca gente reunida para recebê-lo naquele dia, então fomos todos para a pista do aeroporto aguardar o desembarque. Naquela época não existiam as passarelas com sanfonas que vemos hoje em dia.

Era uma linda manhã de céu azul quando o avião imenso pousou plasticamente e veio taxiando até perto do nosso grupo. Falava-se muito no filho de um grande empresário dos Estados Unidos que havia aprendido a meditar e assim conseguira abandonar o vício em heroína. Em agradecimento, o empresário resolvera doar um Boeing 707 para o mestre que havia ajudado seu filho. Era esse o avião que acabara de chegar, trazendo o próprio mestre e um grupo de cientistas que viajavam pelo mundo divulgando a Meditação Transcendental, sempre conjugando a visão espiritual com a científica.

Eu me posicionei estrategicamente na base da escada. A ansiedade era tão grande que esse era o único lugar onde eu queria — onde poderia — estar.

A porta finalmente se abriu, e Maharishi apareceu. Lembro de cada detalhe: da brisa que agitava sua barba e seus cabelos, e de como ele veio descendo a escada calmamente, com aquele olhar plácido característico dos iluminados.

A escada era um pouco instável. Nos últimos degraus, antes de pisar em solo brasileiro, o mestre se desequilibrou ligeiramente e se apoiou na minha mão, que estava no corrimão. Ele então olhou para o meu rosto e abriu um sorriso. Nesse momento, eu o saudei, dizendo Jai Guru Dev, e no mesmo instante um silêncio e uma calma profunda tomaram conta da minha mente. Conhecer Maharishi era um dos meus maiores ideais, e toda a minha busca pelo autoconhecimento se materializou naquele toque sutil que recebi do mestre.

O ano era 1985, e hoje vejo que esse foi o ponto de virada na minha vida, determinando o valor de tudo que viera antes e viria depois.

Poucas vezes na vida nos damos conta de que estamos no lugar certo, na hora certa. Naquele momento, eu soube.

O começo

Quem quer começar a meditar só precisa estar pronto para passar um tempo sozinho consigo mesmo. Não é necessário se desligar do mundo, abandonar os problemas nem fazer esforço para chegar a um lugar distante. Nossa jornada não nos levará ao alto de uma montanha ou a um campo florido numa terra longínqua — o caminho leva para dentro de nós mesmos. E nada pode ser mais simples, pois ninguém é mais íntimo para você do que você mesmo.

Certa vez, um meditante disse a Maharishi que gostaria de ter uma vida um pouco mais isolada; pensava em viajar para a Índia passar um tempo no Himalaia. Ao que ele prontamente retrucou: “O Himalaia é o seu quarto, o lugar onde você se senta para meditar. Não tem a menor necessidade de ir para outro continente, pois você já dispõe da técnica correta para experimentar a iluminação.”

A partir daí entendi que não é preciso ir para outro lugar em busca de algum tipo de realização espiritual. Muitas pessoas passam a vida achando que precisam sair, quando, na verdade, elas só precisam entrar.

Na quietude da solidão, encontramos uma força inexplorada. Não devemos buscar a alegria nas distrações externas, mas na riqueza do nosso mundo interior. É na solidão que a jornada para o autoconhecimento e o amor-próprio se inicia — um caminho iluminado pela compreensão de que a verdadeira felicidade é um estado de Ser, não um destino.

É no agora que vamos encontrar a paz. Ao nos afastarmos do barulho e das demandas do mundo exterior, nos voltamos para dentro, onde reside um reservatório ilimitado de amor e felicidade. A verdadeira transformação começa no silêncio do Ser, na aceitação amorosa de quem somos, longe das ilusões e expectativas sociais.

Na serenidade da meditação, descobrimos a verdadeira essência do autocuidado: um encontro sagrado com o nosso Ser mais profundo.

Foi exatamente essa simplicidade que me arrebatou bem antes do meu encontro com Maharishi, quando tive meu primeiro contato com a Meditação Transcendental nos anos 1970.

Na época, começava a se popularizar a ideia de que nossos objetivos pessoais e profissionais só podem ser alcançados com muita luta e esforço. Poucos anos mais tarde essa concepção ficaria para sempre cristalizada no slogan “No pain, no gain”, repetido à exaustão por Jane Fonda em seus célebres vídeos de exercícios físicos. Esse lema logo foi adotado e aplicado a todos os aspectos da vida moderna.

Muita gente acredita tanto nisso que sacrifica a saúde e o bem-estar em nome da fama, da grana ou do reconhecimento social e profissional. Em contraponto, a MT* se apresenta como um processo mais simples e natural de ver o mundo, ensinando que a vida não tem nada a ver com o sofrimento valorizado por algumas religiões.

No entanto, eu me sinto entusiasmado em dizer: você não precisa matar um leão por dia para ser feliz, para ganhar dinheiro, para ter um bom negócio, para obter sucesso na vida… O que você procura já está aí, dentro de você — e, acolhendo esse campo infinito de criatividade, seus sonhos se tornarão plenamente realidade: a Felicidade, com F maiúsculo.

Essa história de que a vida é uma luta é muito triste. Mas não me entenda mal. Claro, precisamos trabalhar, isso é louvável, só que o fundamental é estar sempre empolgado, conectado com o porto seguro que reside dentro de nós, que é a nossa própria essência: o silêncio. Foi esse o ensinamento que fui buscar e encontrei com Maharishi. Mas vamos começar do começo.

Em meados da década de 1970, meu universo girava em torno da Zona Sul do Rio de Janeiro, composto basicamente pelos amigos do esporte (praticantes de voo livre e surfe) e os das noitadas. De modo geral, embora não fossem muito espiritualizados, mostravam-se receptivos a esses saberes, aliando essa sensibilidade a uma vibe mais hippie, meio psicodélica até, que não se resumia aos aplausos ao pôr do sol no Arpoador. Nada contra, mas eu sentia falta de algo mais profundo, que desse sentido aos anseios de alguém que estudara em colégio de padres, mas não ficava muito à vontade com os dogmas da Igreja Católica. Eu me dei conta de que precisava me entender melhor, e talvez um mergulho interior me ajudasse. 

Saí de casa cedo, aos 17 anos, e, por uma travessura do destino, consegui um espaço inusitado para morar. Munido de uma barraca de camping, na companhia do meu cachorro Toronto, me mudei para as montanhas de São Conrado.

Não havia na minha vida nada de muito concreto, nem a refeição do dia dava para garantir. Quando não aparecia ninguém para me dar comida, eu tomava um copo d’água com açúcar e ia dormir. Apesar disso, a vida era muito generosa comigo. Eu tinha muitos amigos, que volta e meia me ajudavam com a alimentação e tudo o mais. Eu não era nenhum sofredor.

Meu novo lar ficava dentro da floresta, perto da rampa de voo livre na Pedra Bonita, no alto do Parque Nacional da Tijuca. Era de lá que decolavam as asas-deltas que começavam a colorir os céus do Rio de Janeiro. Isso foi em 1977. Um dia típico começava na rampa e terminava na praia, e muitas vezes seguia, ao entardecer, para a “varanda” da minha barraca. Conversávamos por horas e horas, e foi num fim de tarde desses, com o sol morrendo cinematograficamente atrás da Pedra da Gávea, que ouvi falar pela primeira vez num outro tipo de voo, que em breve transformaria a minha vida para sempre.

O assunto mais comum dessas conversas era o voo livre, mas certo dia um amigo chamado André Sansoldo, também piloto de helicóptero e mais velho que eu, começou a descrever um amor muito pleno e profundo, que naquela vida à beira-mar eu não conhecia. Prestes a ser pai pela primeira vez, ele contava quanto estava encantado com a vida, com a esposa, com a família, quão pleno estava o seu coração, que transbordava de amor.

André era uma referência para mim, e foi impactante escutá-lo sobre a maturidade espiritual no amor e sobre a profundidade que isso traz à nossa vida. Era a primeira vez que eu ouvia algo do tipo, mas a sensação foi de déjà-vu, de que eu já conhecia tudo aquilo. No fundo sempre tive uma alma meio poética, sempre acreditei no bem, no amor, em um mundo melhor. Enxerguei um caminho.

Curioso com esse papo, quis saber como ele tinha chegado a esse estado de harmonia. Foi aí que André me contou que estava fazendo Meditação Transcendental, prática ainda não muito difundida entre os nossos amigos. Na hora pensei: “Eu quero isso para mim!” Ele então me perguntou se eu gostaria de conhecer. Embora eu claramente me mostrasse disposto e sensível ao assunto, perdi a vontade quando ele falou que o lugar onde realizava sua prática era no Centro da cidade. Sair da Pedra Bonita, ainda mais sem o cachorro, era dificílimo. Toronto era uma alma gêmea para mim. Um companheiro inseparável na minha solidão. Eu não queria deixá-lo sozinho. Mas André insistiu: “Klebér, não se preocupa, não. Eu acho que você vai curtir muito. Eu venho aqui, te pego e levo lá para o Centro, para conhecer.” Fiquei com vergonha de recusar. E assim fizemos ao longo dos seis dias do curso.

Eu tinha 17 anos, e meus pais esperavam que eu soubesse o que fazer da vida, ou pelo menos que carreira seguir. No entanto, os questionamentos deles só deixavam a minha mente cada vez mais agitada e confusa. Eu me ocupava do esporte e ia levando, mas não tinha uma perspectiva muito clara em relação ao futuro. Então fui apresentado à MT.

Mais ou menos nessa época, ouvi algo sobre o potencial infinito do ser humano que não costuma ser explorado. Nós nos afastamos dele porque ficamos presos no mundo, por não procurarmos dentro de nós mesmos a base da vida, a sua essência estável e equânime, que traz paz e aconchego porque é o oposto da insegurança e do medo.

Isso mexeu comigo. Muitas coisas ditas, mas que andavam esquecidas, me foram relembradas, começaram a fazer sentido. Eu me senti voltando para casa, e com isso comecei a curar todas as minhas feridas, todas as minhas dores. O meu distanciamento em relação à felicidade foi se encurtando.

Eu sentia que essa essência de que eu ouvia falar já existia em mim e me despertava curiosidade. Esse foi o primeiro contato com a MT, o início de uma tremenda transformação na minha vida

*MT: sigla que se refere à Meditação Transcendental, usada popularmente por quem é adepto da prática.

Nota editorial: Trecho do livro “A Vida Foi Feita Para Dar Certo”, de Klebér Tani (Editora Sextante).

Klebér Tani

Klebér Tani é professor de Meditação Transcendental há mais de quatro décadas, e discípulo pessoal do mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi. Formado como educador físico em 1988, desenvolveu a “fisiologia do repouso”, área de estudos que aborda os benefícios do equilíbrio entre repouso e atividade para a saúde física, mental, espiritual e criativa. É também parceiro da Fundação David Lynch, através da qual oferece treinamentos em presídios, escolas e hospitais em oito estados brasileiros.

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