Sempre gostei de pessoas bem-humoradas, principalmente como professora de adolescentes, já que sei o quanto uma piada bem feita pode melhorar o clima de uma sala inteira. Ela quebra o gelo, aproxima as pessoas, inicia amizades. O humor é uma ferramenta extremamente útil e, muitas vezes, um sinal de inteligência. É preciso ter pensamento rápido, conhecimento de mundo e uma capacidade de observação aguçada para fazer uma boa piada. Só que, nesta semana, assisti ao documentário Terapia em Grupo: Encontros Sem Filtro, que me levou a uma nova reflexão: o que acontece quando o humor deixa de ser uma forma de expressão e passa a ser a única forma possível de existir?
Depois de vinte anos em sala de aula, perdi a conta de quantos alunos conheci que faziam a turma inteira rir. Eram os primeiros a brincar quando tiravam uma nota baixa, os primeiros a ironizar um erro, os primeiros a fazer graça quando alguém perguntava se estava tudo bem. Nós, adultos, interpretamos isso apenas como extroversão, às vezes até como abuso, insolência. Com a experiência, aprendi a olhar com um pouco mais de cuidado. Como diz meu filho, por acaso um adolescente bem engraçado: “ninguém sabe como está a cabeça do palhaço”.
De forma alguma essa reflexão me leva a concluir que todas as pessoas engraçadas estão sofrendo e tampouco que toda piada esconde uma dor. A questão é que algumas escondem. Acompanhando tantas pessoas em formação, aprendi que o humor pode cumprir funções muito diferentes. Existe a piada que aproxima, a que torna uma aula inesquecível e a que inicia conexões entre pessoas que até então mal se conheciam. Mas existe também a piada que protege. A do aluno que ri da própria nota antes que alguém faça isso por ele, a do adolescente que transforma qualquer comentário sobre o próprio desempenho em brincadeira porque admitir que aquilo doeu parece humilhante demais.Não foram poucas as vezes em que descobri, por trás do aluno mais engraçado da turma, uma autoestima intelectual tão fragilizada que ele preferia parecer desinteressado a correr o risco de parecer incapaz.
Isso também me fez pensar no próprio bullying. Evidentemente, ele é um fenômeno complexo e não pode ser explicado por uma única causa, mas algumas das situações que acompanhei pareciam seguir uma lógica comum: rir do outro antes que alguém tenha a chance de rir de mim, ridicularizar quem faz uma pergunta para não correr o risco de revelar minhas próprias dúvidas e inseguranças. Transformar alguém em alvo pode oferecer uma sensação momentânea de proteção, mas pode ter consequências difíceis de reverter no futuro. Quem sofre é marcado pela humilhação e quem agride aprende, muitas vezes sem perceber, que só consegue ocupar um lugar no grupo diminuindo outra pessoa.
Talvez isso tenha também uma dimensão cultural. Evidentemente, nenhuma característica pode ser atribuída a um povo inteiro, mas é difícil não perceber como nós, brasileiros, costumamos nos orgulhar da capacidade de rir de tudo. Fazemos piada da falta de dinheiro, do atraso, do trânsito, da política, do fim de um relacionamento e até das nossas próprias tragédias. Somos campeões de memes espetaculares e, para muitos de nós, uma das linguagens do afeto é justamente compartilhar vídeos que vão arrancar um sorriso dos amigos. É, de forma geral, um traço muito bonito da nossa cultura. O humor pode ser, inclusive, uma forma de resistência diante de dificuldades reais e profundas. Quando há pouca margem para mudar a realidade, rir dela pode ser uma maneira de continuar seguindo em frente sem ser esmagado pelo peso da própria angústia.
Talvez seja justamente por cumprir tão bem esse papel que o humor também pode, em alguns momentos, deixar de ser um recurso e passar a ser uma obrigação, algo que exige cada vez mais e que já não proporciona o mesmo prazer de assistir à “plateia” gargalhar, ainda que essa plateia seja apenas a própria mãe ou um grupo de amigos.Vivemos repetindo frases como “não se leva tão a sério”, “segue em frente” ou “foi só uma brincadeira”, especialmente em tempos de “coachização” da vida, em que demonstrar que nada nos afeta passou a ser confundido com um traço de maturidade emocional.
Embora exista sabedoria nessas frases, também há um limite que nem sempre percebemos. Existe um abismo entre não se levar tão a sério e não levar a própria dor a sério, e esse abismo nem sempre é perceptível ou mensurável.
Nem tudo precisa virar meme. Nem toda tristeza precisa ser imediatamente transformada em uma piada. Nem toda vulnerabilidade precisa ser disfarçada por uma resposta espirituosa, um “tô nem aí” para tudo o que nos cerca. É importante se importar, é importante reconhecer quando alguma coisa nos machuca, quando uma perda nos fere profundamente ou quando simplesmente não temos nenhuma vontade de rir.
Percebo isso não apenas entre adolescentes, mas também entre adultos. Quantas vezes alguém responde com ironia quando, na verdade, está com vergonha? Quantas vezes faz uma piada para esconder que não entendeu alguma coisa? Quantas vezes ri de si mesmo antes que outra pessoa tenha a oportunidade de rir? O humor pode proteger da dor, mas também pode impedir que ela seja superada de verdade, porque o que é constantemente escondido dificilmente encontra espaço para ser elaborado.
Na clínica, na escola e na vida, aprendi que existe um momento em que precisamos parar de fazer graça para conseguir falar sério sobre nós mesmos. É muito comum que, em análise, uma pessoa narre um fato rindo, afirme que “pelo menos tem história para entreter os amigos” e, poucos minutos depois, desabe em um choro dolorido. Essa virada de chave, quando se entende que talvez já não estejamos sendo tão capazes assim de rir da nossa própria desgraça, costuma ser desconfortável e pede coragem. Quase ninguém se sente imediatamente pronto para mudar.
Acho que essa é a reflexão mais sagaz que o documentário pretende provocar. Não precisamos abandonar o humor, pelo contrário. Rir continua sendo uma das experiências mais humanas que existem e pode realmente nos salvar, animar, melhorar até mesmo a nossa saúde. O que precisamos urgentemente é construir relações e espaços em que também seja possível dizer “hoje eu não estou bem” sem sentir que decepcionamos alguém, sem acreditar que estamos sendo exagerados ou fracos porque a vida está doendo mais do que conseguimos suportar.
Agora, terminado esse texto, fiquei pensando que o problema nunca tenha sido o palhaço, e sim a plateia. Nós nos acostumamos tanto a recompensar quem nos diverte que quase nunca nos perguntamos o que aquela pessoa precisou esconder para ocupar esse lugar. O documentário não fala só sobre comediantes, mas sobre todos nós, que aprendemos, em maior ou menor grau, que algumas emoções são mais aceitáveis do que outras. É justamente quando ninguém mais está rindo que a gente tem a possibilidade de descobrir se o humor era uma escolha ou uma necessidade.
Neste texto e para ir além:
Filme: Terapia em grupo disponível na Aquarius
