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DO OUTRO LADO DO DIVÃ: CONFISSÕES DE PSICANALISTAS

News 88 · 22 de junho de 2026

DO OUTRO LADO DO DIVÃ: CONFISSÕES DE PSICANALISTAS

Nesta edição: a relação analista/analisando, os obstáculos de quem se propõe a escutar, e a sutileza complexa das falas que se convertem em mudanças.

“Todos os dias, milhares de mulheres, homens e crianças se deitam em um divã para contar suas vidas. O que acontece entre cada um deles e seu psicanalista?”

É essa pergunta que Do Outro Lado do Divã: Confissões de Psicanalistas pretende responder, e já aviso que não oferece nenhuma resposta definitiva. Os seis psicanalistas convidados a falar de suas práticas abordam pontos importantes do trabalho clínico e o enquadramento necessário para que uma análise aconteça, além de algumas experiências marcantes, como a recusa de pacientes e a função do dinheiro no processo analítico.

Embora os divãs nunca estejam vazios, principalmente na França, esse documentário só foi possível graças ao interesse gerado pela série En Thérapie, adaptação da aclamada israelense BeTipul. A proposta é que cada entrevistado responda às grandes perguntas que as pessoas costumam se fazer sobre quem é e como atua um psicanalista, delineando aos poucos os contornos de uma prática cercada de mistério e fantasias.

O documentário é, sem dúvida, um terreno familiar para quem está atravessando uma análise. Mas fico curiosa para saber até que ponto alguém sem essa experiência consegue realmente apreender o que dizem esses psicanalistas. Porque, como afirma Ali Magoudi, um dos entrevistados, a principal motivação para que as pessoas considerem a psicanálise costuma ser a percepção de que há repetições em suas vidas das quais abririam mão, padrões que se impõem e causam sofrimento. Sem isso, é bem complicado sustentar a procura por um analista.

Dizem que uma análise não é para todo mundo, e acredito que o mesmo vale para o lugar do psicanalista; não é qualquer um que suporta ficar do outro lado. No filme, os profissionais falam abertamente de sua função, de seu posicionamento e das próprias questões que o trabalho levanta. Falam da sustentação do silêncio. É uma posição extremamente difícil, que produz efeitos no analisando muitas vezes invisíveis, de uma sutileza complexa.

Uma análise não é uma terapia e não tem um objetivo predeterminado a alcançar. A cura, na psicanálise, tem mais a ver com as mudanças que ocorrem no processo e que nos tornam capazes de viver de forma diferente; sair de lugares aparentemente cristalizados, como “sempre escolho alguém que me abandona” ou “toda vez que tento ir adiante profissionalmente, desisto no meio do caminho”. Repetições que aprisionam e trazem sofrimento.

Uma análise não é didática nem terapêutica. É um salto no desconhecido. Iniciei uma nova análise há poucos anos e, mesmo com conhecimento teórico e prática clínica, volta e meia me pergunto para onde esse percurso está me levando. Mas questionar o caminho nunca significou invalidá-lo, e sigo voltando ao divã, apontando para a frente.

Esse documentário é uma porta de entrada bem-vinda para quem quer espreitar o que se passa no consultório de um analista. Os psicanalistas entrevistados conversam sobre suas práticas com abertura rara, mas não se engane: não falam de si, falam de seu trabalho. Ainda assim, criam uma atmosfera de acolhimento para o espectador — um certo enquadramento, como gostam de dizer — que propicia uma espiada curiosa e legítima num território normalmente fechado.

É um convite. E talvez seja justamente isso que uma análise também seja: um convite que o analisando precisa reafirmar a cada sessão, escolhendo seguir em frente, não porque sabe aonde vai chegar, mas porque aprendeu a confiar no que o movimento revela.


Neste texto e para ir além:

Documentário: Do Outro Lado do Divã, na Aquarius

Série: Sessão de Terapia, no Globoplay

Livro: Seu Paciente Favorito: 17 Histórias Extraordinárias de Psicanalistas, de Violaine de Montclos

Livro: Análise, de Vera Iaconelli

Cristhiane Ruiz

Cristhiane Ruiz

Cristhiane Ruiz é psicóloga e editora. Terminou de assistir a Encontros com Ivor e ficou ainda algumas horas sob o impacto do filme, uma narrativa de fluidez quase espiritual.

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